
Por terras de Penalva do Castelo
[M. Conceição Moura Aguiar]
Sábado, dia 7 de fevereiro.
O autocarro, em frente à igreja, encheu-se de pessoas bem dispostas, apesar do recente acordar.
Pelas nove horas, o veículo fecha as portas e arranca para mais uma aventura do grupo extraordinário de professores e alunos da Universidade Sénior As Mestras de Ranatus.
Lá fora, o céu chorava copiosamente não dando tréguas. Todos os deuses pareciam apostados na desistência destes guerreiros, porém a sua vontade nesta demanda não os demoveu.
Chegados a Castendo – terra de muitos castanheiros, dizia-se – hoje Penalva do Castelo, entrámos na Biblioteca Municipal, onde a arquitetura e o saber vivem de mãos dadas com o futuro daquelas gentes.

Recebidos gentilmente pelo sr. Vereador da Cultura e pelo Sr. Diretor da Biblioteca, ouvimos e partilhámos histórias, saberes e vivências.
Este último leu um texto de sua lavra, no qual nos dava conta de uma das tradições da terra a propósito do namoro, representada na Fonte dos Namorados que se vislumbrava da enorme janela da sala onde nos encontrávamos. Neste contexto foi, igualmente, deliciosa a intervenção da D. Fernanda a contar algumas das suas vivências.

O mesmo sr. Diretor quis, ainda, partilhar connosco o que já fora realizado pela Biblioteca e os seus sonhos e projetos num futuro onde mais se efetive a ligação à comunidade, assumindo-se como real motor para uma sua progressiva evolução sócio-cultural. Para tal socorreu-se de um vídeo elucidativo sobre esse tema. Pôde ainda sublinhar as autênticas jóias concelhias que merecem ser visitadas e conhecidas.

Dali, partiu-se para a Casa da música onde a Banda Musical Recreativa vem fazendo um trabalho reconhecidamente meritório. Tivemos novamente direito a guia, nomeadamente, a filha do chefe da Banda, também ela uma sua executante.
Acabada esta visita guiada, o grupo rumou até à Igreja da Misericórdia, de estilo mesclado de barroco/neoclássico, construída entre os séculos XVIII e XIX e ao Núcleo Museológico que a integra, o que a todos maravilhou e enriqueceu.

Não se poderia sair desta vila sem provar os famosos bolos de maçã de Esmolfe. Assim, numa breve pausa, foi possível comprovar o seu delicioso sabor no café, ao lado da Igreja Matriz.

A hora do almoço avizinhava-se. A chuva continuava a cair insistentemente durante todo o percurso que nos conduziria ao restaurante. Antes da entrada no autocarro, Éolo fez-se presente e os chapéus de chuva, em obediência, vergaram-se e viraram-se de pernas para o ar, arrancando gargalhadas sonoras ao grupo.
O almoço foi do agrado de todos.
Em Penalva do Castelo, a cidade e as serras
Após este belo repasto, o grupo dirigiu-se à Casa da Ínsua, propriedade originalmente de D. Luís de Albuquerque, hoje um Hotel de Charme.

Mal se começa a visita, percebe-se que este senhor era um verdadeiro visionário. Entrávamos n’ A Cidade e a Serra” de Eça de Queirós, entre o contraste das maquinarias, do progresso e a ruralidade que seria a entourage do palacete. Toda a parafernália que se encontra na casa das máquinas é impressionante.
A capela também faz jus à opulência do palacete com a sua cúpula ornada a azul e branco, não deixando dúvidas acerca do poder desta família. Ali, pudemos constatar o paradoxo de, num lugar de oração e veneração a um Deus igualitário e justo (segundo a Bíblia), estarem bem vincados os diferentes lugares, a obedecerem às diferenças e às classes que os homens, apesar de crentes, teimam em manter.
A seguir à capela, foi a vez da casa. Os radiadores da época, apesar da idade, deram-nos as boas vindas com um calorzinho aconchegante.
Depois da subida das hieráticas escadas em granito, contacta-se, de imediato, com Walter Scott e com o seu poema A Dama do Lago que serviu de inspiração ao pintor que o plasmou nas paredes da sala. Na verdade, toda a sala é um poema. Seguiu-se a Sala da China em cuja entrada o olhar perscrutador de um guarda chinês colocado propositadamente no canto, à esquerda, assusta um pouco o desprevenido visitante. É o guardião das obras de arte aí colocadas.
À direita dessa sala, entra-se numa outra que não é mais do que uma galeria de retratos da família Albuquerque, a que se sobrepõe um teto com pinturas de figuras mitológicas a lutarem entre si. Uma outra sala surpreende pelo teto em caixotões pintados com diferentes motivos e o chão com figuras esculpidas a partir da própria madeira. Todas as salas têm grandes lareiras com inscrições em latim, remetendo, assim, para a erudição do seu proprietário.
O resto da visita a esta casa confirmou o que atrás se disse, o seu proprietário era uma pessoa que visionava o futuro, visão confirmada, não só pela sua arquitetura como também por toda a panóplia de objetos de arte que a adornam e, ainda, pelos objetos utilitários.
O néctar de Penalva

A hora ia avançada e era tempo de regressar a Viseu, mas não antes de se ter feito uma visita à adega da Corga, onde o dono fez questão de nos receber e brindar com o delicioso néctar da sua colheita, a que Baco, certamente não seria indiferente.
Bem hajam as organizadoras, Dr.ª Beatriz, Dr.ª Marisa e D. Fernanda, por este dia que, apesar da chuva, foi um sucesso.